TMQ – Techniques, Methodologies and Quality – Número Especial – Segurança e Saúde no Trabalho

Banner - TMQ - Edição Especial - Segurança e Saúde no Trabalho

Editores Convidados

João Areosa, Instituto Politécnico de Setúbal

Hernâni Veloso Neto, Instituto Politécnico de Tecnologia e Gestão

Editores

António Ramos Pires, Instituto Politécnico de Setúbal

Margarida Saraiva, Universidade de Évora

Álvaro Rosa, ISCTE-IUL

Índice

Relações de trabalho na dinâmica do capitalismo contemporâneo: uma antecâmara para o suicídio?

ALINE FÁBIA GUERRA DE MORAES • DEISE LUIZA DA SILVA FERRAZ • JOAÃO AREOSA

Resumo

O suicídio relacionado ao trabalho é um fenômeno que alerta o mundo organizacional de forma impactante. Entender o porquê deste fenômeno não é tarefa fácil, tendo em vista que o mesmo é multifatorial. Entretanto, analisando a questão do ponto de vista das relações de trabalho, é possível encontrar elementos que auxiliam na produção do suicídio enquanto meio de acabar com o sofrimento derivado da esfera laboral. Desse modo, propomo-nos no presente artigo a discutir sobre estes elementos, produzidos na sociedade capitalista, que apresentam o suicídio como uma alternativa ao indivíduo. Para isso, realizamos uma breve análise das mudanças no mundo do capital desde a década de 1970, passando pelo desmonte do regime de regulação vigente e adentrando a era da flexibilização, a qual acarretou um aumento na precariedade das relações de trabalho, desembocando em elementos como o estresse, burnout, assédio moral e sexual, dentre tantos outros flagelos, frutos da intensificação da precarização do trabalho. A análise das mudanças nas relações de trabalho a partir desta perspectiva mostrou que aqueles são os elementos, juntos a tantos outros, que fazem a mediação da criação do suicídio enquanto possibilidade plausível para o indivíduo, estando o modo de produção capitalista, a forma como se organiza, diretamente ligada ao fenômeno suicídio.

Palavras-chave: Capitalismo, suicídio, trabalho.



O Trabalho: Entre Prazer e Sofrimento

DUARTE ROLO

Resumo

Este artigo tem por objectivo introduzir os principais aportes teóricos da psicodinâmica do trabalho para a compreensão da relação entre o homem e o trabalho. Com esse intuito, expõe num primeiro tempo as diferentes fases do confronto entre a subjectividade e o real do trabalho, e procura evidenciar a natureza fundamentalmente afectiva da experiência do trabalho. Termina, por fim, evocando brevemente os requisitos individuais e colectivos da saúde mental no trabalho, propondo uma interpretação etiológica de certos distúrbios mentais relacionados com o trabalho.

Palavras Clave: Psicodinâmica do trabalho, sofrimento, inteligência prática, reconhecimento.



Gestão da Emergência – Conceitos, Princípios e Normas ISSO

JOÃO LUIZ FREIRE GONÇALVES VALENTE

Resumo

A gestão da emergência tem tido nos últimos anos um desenvolvimento significativo, plasmado em normas facilitadoras para uma implementação eficaz e de regulamentação legislativa, orientadas para a prevenção e mitigação de incidentes de natureza diversa, que têm ocorrido e se têm repetido por todo o nosso planeta. Incidentes estes com causas de origem várias, como sejam, a natural, a tecnológica ou social, que têm com bastante frequência resultado em custos, de vidas e financeiros, demasiado elevados para as organizações, regiões, países e sociedade em geral. Estes acontecimentos ao serem relatados e comentados nos meios de comunicação social induzem muitas vezes os ouvintes e leitores em erros e confusões, que confluem em opiniões e tomadas de posição desajustadas da realidade e que denotam um desconhecimento profundo dos conceitos e princípios da gestão da emergência e como a mesma é, e deve ser implementada. Assim surgiu a motivação para elaboração do presente artigo com o propósito de clarificar conceitos, informar princípios e apresentar os mais recentes desenvolvimentos normativos publicados pela ISO (International Organization for Standardization) na temática da gestão da emergência.

Palavras-chave:Emergência, gestão da emergência, normalização, princípios.



Perturbações do sono, trabalho por turnos e escolhas alimentares: revisão integrativa da literatura

MARGARIDA CERDEIRA • HERNÂNI VELOSO NETO • OLÍVIA PINHO

Resumo

A realização do presente estudo visa constituir uma revisão integrativa da literatura acerca das escolhas alimentares protetoras e promotoras do sono, abordando, primeiramente, de que forma a alimentação e o sono se encontram interrelacionados, e como estes aspetos também têm repercussões ao nível do trabalho. O ser humano, e em particular os que desempenham atividades profissionais, como parte integrante que é do ecossistema que habita, de forma dependente deste faz regular o seu organismo, regendo os seus processos metabólicos e fisiológicos sob o comando de um ritmo circadiano. Entre outros fatores, este é influenciado pela alimentação, pelos hábitos de sono e pelo tipo e horários da atividade de profissional. A alimentação e o sono influenciam, reciprocamente, a ritmicidade interna do organismo. A discordância entre estas relações pode contribuir e originar distúrbios orgânicos e funcionais na pessoa, com consequências relevantes ao nível da vida pessoal e laboral. É, pois, de suma importância o conhecimento acerca dos recursos alimentares e comportamentais que podem ser mobilizados e aplicados, visando a manutenção da saúde, nomeadamente em contexto ocupacional, e reconhecendo a responsabilidade que cabe a cada indivíduo assumir na manutenção do seu estado de saúde.

Palavras-chave: Ritmo circadiano, sono, alimentação, trabalho por turnos.



Avaliação de Riscos Psicossociais no Ensino Superior

CLÁUDIA LOURENÇO • MARIA ODETE PEREIRA

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo avaliar e identificar os principais riscos psicossociais presentes no Ensino Superior, mais especificamente, na população docente e não docente das cinco escolas que constituem o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). Para realizar esta avaliação foi aplicada a versão longa do Copenhagen Psychosocial Questionnaire – COPSOQ, a uma amostra de 90 participantes. No que respeita aos dados obtidos a média da subescala mais pontuada obtém uma pontuação de x ̅ = 3,59 na subescala Exigências Cognitivas e de x ̅ = 1,29 na subescala Comportamentos Ofensivos. Através da análise dos tercis verificou-se que as subescalas que traduzem maior risco psicossocial são: Exigências Cognitivas, Ritmo de Trabalho, Exigências Emocionais, Influência no Trabalho, Apoio Social de Superiores e Conflito Trabalho/Família. Relativamente às variáveis sociodemográficas e organizacionais que estão associadas a maior risco psicossocial, foram evidenciadas diferenças significativas nas mulheres, nos trabalhadores situados na faixa etária dos 30 aos 35 anos, nos trabalhadores com habilitações de nível secundário e licenciatura, nos participantes que vivem em União de facto e nos trabalhadores que têm um vínculo laboral precário. Por outro lado, as pontuações significativamente mais elevadas também se evidenciam nos trabalhadores administrativos e técnicos, comparativamente ao pessoal docente, nos professores coordenadores quando comparados com os assistentes e nos trabalhadores com mais de 11 anos de antiguidade.

Keywords: Fatores de risco psicossocial, Níveis de risco, Ensino superior.



Acidentes de Trabalho – Um ramo de seguros sem futuro no regime privado?

ABEL BABO • HERNÂNI VELOSO NETO

Resumo

O presente artigo aborda um tema muito sensível, para a sociedade, em geral, e para as seguradoras, mais em concreto, que é o ramo de acidentes de trabalho. A questão é pertinente num momento em que os resultados para as seguradoras, neste ramo, são catastróficos e os aumentos do preço dos seguros em nada mudou a trajetória da sinistralidade. O que se pode então fazer? Muito se fala hoje em dia do futuro das seguradoras, dos riscos cibernéticos, do potencial da internet, mas pouco se fala da prevenção da saúde das pessoas e da sua segurança no trabalho. Na realidade, no interesse de todos os envolvidos, apostar na prevenção é o futuro do ramo ou será que o ramo não tem futuro? O propósito deste artigo é defender a continuidade do regime português (e já agora o belga) em detrimento da transferência deste ramo para o Estado, onde, certamente, a proteção do trabalhador não será a mesma. Com o texto tenta-se verificar e entender que não basta ter um seguro de acidentes de trabalho para a empresa estar segura ou uma seguradora gerir um sinistro, passa pela empresa (juntamente com a seguradora) entender que as implicações legais num sinistro vão para além da legislação de acidentes de trabalho, da chamada LAT. Finaliza-se afirmando que, não podem nem devem, as seguradoras a substituir-se às entidades empregadoras, suas clientes nas suas obrigações legais de “assegurar” a segurança dos seus trabalhadores. Provavelmente, se fossem cumpridos, pelo menos, requisitos mínimos de segurança e saúde no trabalho, os custos dos seguros não aumentariam e a sustentabilidade do ramo não estaria ameaçado.

Palavras-chave: Segurança industrial, seguradoras, seguro, gestão de sinistros, acidentes de trabalho, segurança, descaraterização.



Stresse Laboral em Trabalhadores Autárquicos

LUÍS NETO • JOSÉ MOREIRA

Resumo

Este trabalho visou analisar os determinantes e efeitos do stresse em trabalhadores do setor autárquico, bem como em elaborar propostas de potenciais melhorias. A metodologia utilizada consistiu num estudo de caso, com base na aplicação de um Questionário sobre Stresse no trabalho. O questionário está subdividido em três partes: A 1ª parte relativa a determinantes do stresse, a 2ª referente aos seus efeitos nos trabalhadores e a 3ª relativa aos dados sociodemográficos e organizacionais. O estudo é quantitativo, transversal e exploratório. A amostra é constituída por 207 indivíduos que trabalham nos diversos setores da organização. Os resultados obtidos, mostram que as subescalas associadas aos determinantes de stresse são por ordem decrescente, as seguintes: 1º Condições Físicas; 2º Carga de Trabalho; 3º Desenvolvimento da Carreira; 4º Equipamentos; 5º Equilíbrio Trabalho – Vida Pessoal; 6º Papel na Organização; 7º Relacionamento com colegas e chefias; 8º Organização do Trabalho; 9º Violência Física ou Psicológica. Ao nível das consequências, os dados obtidos revelam que 46,4% dos inquiridos indicam que o seu nível de stresse habitual é elevado ou muito elevado. De entre os sintomas de stresse mais correntes surgiram, com valores mais elevados: os Esquecimentos, os Distúrbios de sono, a Ansiedade, a Tensão muscular, a Irritabilidade excessiva, as Alterações do apetite, a Falta de energia para ir trabalhar de manhã. Foi analisado o impacto de algumas variáveis sócio demográficas e organizacionais sobre os indicadores de stresse. Para além de alguma discussão dos dados obtidos, foram propostas algumas intervenções no sentido da melhoria da atenuação dos stressores.

Palavras-chave: Autarquia, Trabalho, Stresse.



Risco de Lesões Músculo-esqueléticas, Stresse e Fadiga laboral em Montadores Ajustadores de Máquinas

DANIEL FERNANDES TOMÉ • MANUEL FREITAS • HERNÂNI VELOSO NETO

Resumo

As condições de trabalho nas oficinas são imprevisíveis e existem vários fatores de risco que potenciam o aparecimento de lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT) entre os Montadores Ajustadores de Máquinas (MAM). O presente estudo tem como objetivo avaliar o risco de LMERT, de stresse e fadiga laboral associado às atividades e posturas adotadas pelos MAM. Foi aplicado um inquérito a 10 trabalhadores de uma oficina, suportado por um questionário de registo de sintomatologia de LMERT e de exposição a stresse e fadiga laboral. Como este tipo de atividade profissional comporta riscos de LMERT, foi utilizado o método REBA para a avaliação das posturas corporais adotadas. Verificou-se que alguns trabalhadores afirmaram ter fadiga e sintomatologias de desconforto corporal, sendo mais evidente a incidência nas zonas lombares, dorsais e ombro. Por outro lado, os níveis de fadiga são altos e os de stresse baixos em alguns MAM, que podem ser agravados pelo trabalho.

Palavras-chave: Oficina, Montadores Ajustadores de Máquinas (MAM), LMERT, REBA, Fadiga laboral, Stresse.



Trabalho e Medo: Estratégias Defensivas e Sustentabilidade das Relações de Trabalho

CARLA MARIA SANTOS CARNEIRO • JOÃO AREOSA

Resumo

No presente artigo será debatida a relação entre trabalho, medo, riscos ocupacionais, estratégias defensivas e sustentabilidade das relações laborais. A articulação destes vários fatores exerce uma notável influência sobre a saúde mental dos trabalhadores. A análise desta temática será efetuada a partir da perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho. Esta área de conhecimento surgiu há quase 30 anos e teve como principal mentor Christophe Dejours.

Palavras-chave: Trabalho, Medo, Psicodinâmica do Trabalho.



Segurança rodoviária em trabalho numa empresa de telecomunicações e eletricidade

ANA LUÍSA TEIXEIRA • ALBERTO SILVEIRA • HERNÂNI VELOSO NETO

Resumo

A condução de uma viatura na estrada é, em numerosas situações, um risco profissional, sendo que esse risco deverá ser avaliado e integrado na política de prevenção de riscos profissionais das empresas, tal como os demais riscos inerentes à atividade global dessas mesmas empresas. Contudo, grande parte delas não adota esta abordagem, ignorando riscos a que os seus trabalhadores estão expostos e não classificando, como acidentes de trabalho, os acidentes rodoviários em trabalho que resultam em dano para o trabalhador. Por isso, com o presente texto procura-se vincar a importância da segurança rodoviária ocupacional em trabalho, e a necessidade das empresas adotarem estratégias e ações para a concretizarem. Para se reforçar a pertinência e as potencialidades dessas intervenções, utilizam-se dados de uma investigação-ação de segurança rodoviária ocupacional realizada numa empresa da área das infraestruturas de telecomunicação e eletricidade.

Palavras-chave: Segurança rodoviária em trabalho, riscos profissionais, acidentes de trabalho em condução.







Editorial


O presente número especial da Revista TMQ é dedicado à segurança e saúde no trabalho. Foi com surpresa que recebemos o convite para assumirmos o papel de editores convidados deste número temático, dado o foco tradicional da revista, todavia, foi um convite que muito nos honrou.

A palavra segurança é polissémica, mas em quase todos os seus significados estão subjacentes as ideias de prevenção, proteção, previsibilidade quanto ao futuro e ausência ou diminuição dos diversos riscos (neste caso específico, os riscos ocupacionais). Contudo, a segurança absoluta não existe, é utópica. Por isso, podemos afirmar que a segurança nunca é total, porque os riscos são entidades omnipresentes nos locais de trabalho, logo, existe sempre a possibilidade de ocorrerem acidentes de trabalho ou de os/as trabalhadores/as contraírem doenças ocupacionais.

Um dos grandes desafios que se apresenta dentro deste âmbito é, indiscutivelmente, uma melhor compreensão dos fatores humanos no trabalho. Já foram dados alguns passos importantes nas últimas décadas, mas o caminho que ainda falta percorrer continua a ser longo e sinuoso. Muitas organizações ainda revelam uma visão profundamente distorcida da própria condição humana, das suas idiossincrasias, das suas características e especificidades. A organização do trabalho em algumas empresas ainda está concebida de forma a imaginar os/as trabalhadores/as como se fossem uma espécie de robots invulneráveis a alterações de ordem bio-psicossociológicas. Em Portugal, vivemos um problema crónico relativamente ao elevado número acidentes de trabalho e doenças profissionais. É natural que este quadro pouco favorável para o nosso país tenha subjacente múltiplas falhas ao nível da organização e das condições de trabalho. É também isso que implica níveis elevados de acidentes de trabalho, incluindo os acidentes mortais (que se constituem como gravidade extrema). Os motivos que estão na génese desta “tragédia nacional” passam não tanto pelas baixas qualificações académicas e socioprofissionais dos nossos trabalhadores, mas particularmente pela persistência dos nossos quadros de topo em não apostarem na prevenção e em sistemas robustos de segurança e saúde no trabalho.

Efetivamente, persiste um défice de investimento na informação e formação profissional dos/as trabalhadores/as, na procura de novas tecnologias mais seguras, na investigação técnica e científica das condições de trabalho, e no reforço das condições psicossociais de trabalho, abrangendo o bom relacionamento humano e comunicacional entre todos os membros de uma organização.

Julgamos – talvez um pouco pretensiosamente - que o conjunto de artigos que agora o leitor tem em mãos possa ajudar a compreender e a sensibilizar para a importância e mais-valia do investimento em segurança e saúde no trabalho, deixando, também, clarividente as múltiplas consequências da diminuta segurança nos locais de trabalho, que redundam em desfechos fatídicos como as mortes, as doenças, as amputações e as perdas de capacidade de ganho dos/as trabalhadores/as.

O Editor Coordenador

António Ramos Pires

Os Editores Convidados

João Areosa

Hernâni Veloso Neto